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Lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim

Nunca pensei que fosse um dia participar de um acontecimento tão tradicional e poderoso: a Lavagem do Senhor do Bonfim.

Senhor do Bonfim da Bahia
Mentirinha do post: essa foto não foi no dia da lavagem… já já você vai entender…

Alerta de spoiler: não, eu não consegui chegar a tempo de ver a bênção e a lavagem propriamente dita. 

Aí você pode perguntar? Uai, como alguém vai para uma lavagem e não vê a lavagem?

Porque a Lavagem do Bonfim é um acontecimento. E posso falar sobre as minhas percepções – mesmo sem ter chegado a tempo do encerramento do evento.

Vamos lá!

A Lavagem é um conjunto de ações, que – nesse dia específico que participei – começa com uma celebração ecumênica na frente da igreja da Nossa Senhora da Conceição da Praia, que fica na cidade baixa de Salvador – quase ao lado da entrada do Elevador Lacerda e do lado oposto ao Mercado Modelo – dois pontos super turísticos e tradicionais.

De lá, os fiéis, devotos, as baianas, os Filhos de Gandhy, os que acreditam em alguma coisa, ou aqueles que não acreditam em nada, enfim, um mar de gente sai, caminhando, em direção à Colina Sagrada, onde, no topo, fica a Igreja do Senhor do Bonfim.

As baianas super enfeitadas, todas carregando seus vasos com flores e água de cheiro. A maioria das pessoas de branco, invocando a proteção e as bênçãos do Senhor do Bonfim.

Com essa descrição, parece que seria quase uma procissão calma e pacata. Mas não: é festiva! É alegre. De repente, surge uma bandinha de timbaleiros. Em outro momento, aparecem ritmistas tocando marchinhas de Carnaval. Os filhos de Gandhy vão entoando cantos durante toda sua passagem.

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“Tem um mistério que bate no coração… força de uma canção que tem o dom de encantar”

A festa é aberta, democrática. Tão democrática que vão caminhando o prefeito, o governador… Políticos de outros tempos se misturam a grupos de protesto contra ou a favor de outros políticos… Mais democrático impossível!

Não consigo descrever a quantidade de gente! É um mar mesmo! As fotos não me deixam mentir.

Como resolvemos tarde que íamos participar do evento, não fomos para a Conceição da Praia. Chegamos, de Uber, na Ladeira da Água Brusca, que fica quase dois quilômetros à frente da saída do cortejo. Foi uma boa dica: ainda era um lugar onde conseguimos chegar com facilidade, mesmo o trajeto estando todo bloqueado para a passagem do povo.

Ladeira da Água Brusca em Salvador
Lá vai a Flavinha… descendo a ladeira!

Ali, fiquei um bom tempo, observando o movimento… As bandas, os vendedores de fitas e guias, vendedores de pipoca… O prefeito… Os manifestantes…

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Apesar de ter chegado relativamente tarde, vimos passar uma grande quantidade de baianas e devotos – aqui, uma licença: não sei como chamar os homens que estavam paramentados – aceito ajuda e esclarecimentos. Sim, porque não eram só mulheres e senhoras vestidas com roupas de inspiração no candomblé… Eram homens e crianças também…

E o grupo é lindo! Uma energia muito bacana!

O caminho é longo, quase 7 km de distância da Conceição da Praia à Colina Sagrada. Mas o caminhar é lento, animado, os grupos já vão cantando e dançando – e tomando uma cerveja – mesmo de manhã… porque para aguentar o calor, um combustível ajuda, deve ser o pensamento de todos!

Ao longo do caminho passamos por uma igreja gótica, super interessante, que descobri ser a Nossa Senhora dos Mares. Não entrei para ver, mas fiquei curiosa e vou incluir na minha próxima visita.

Nossa Senhora dos Mares em Salvador
Gótica!
Irmã Dulce
Irmã Dulce abençoando o caminho!

Durante a caminhada, bem em frente à sede da obra da Irmã Dulce, meu marido me apontou uma senhorinha, vestida de baiana, ao redor da corda dos Filhos de Gandhy. Não me contive e fui lá prosear com ela. Ela tinha 78 anos – e eu até julguei que talvez fosse mais; no entanto, ponderei que ela deve ter levado uma vida bem pesada e desgastante… Perguntei a ela por que ela ia ao Bonfim, e a resposta, com um sorriso lindo foi:

“Quem tem fé vai a pé”

Esse bordão é um mantra, você ouve do povo, vê estampado nas camisas. Ela me disse que vai todo ano! A devoção transpirava pelo sorriso dessa senhora – que não tirei fotos e me esqueci o nome… Ela me perguntou de onde eu era, se eu estava gostando da festa… Sim, eu estava amando!

Ver tanta gente lá, numa festa de fé, faz você pensar em várias coisas da sua própria vida, e faz dar valor e agradecer muito por poder estar lá!

Quando o Bonfim se aproxima, as ruas por onde passa o cortejo se estreitam… E aí que eu tive o “problema”: a passagem dos Filhos de Gandhy, com seu carro de som e corda, ocupa quase a largura toda das vias. Fica difícil “ultrapassar” o cortejo deles.

Filhos de Gandhi
Atrás dos Filhos de Gandhy só não vai quem?

Não, sejamos justos: o problema foi também o grande tempo de observação! Se tivesse ido direto para a colina na hora que cheguei, teria dado tempo. Falta de conhecimento e uma certa cota de encantamento me tiraram do horário… Cheguei na colina por volta das 14h… Eu e mais um batalhão de gente que ainda ia…

Quando você vê a “distância regressiva” das placas indicativas, dá uma felicidade.

E virar a rua e ver o Bonfim dá – pelo menos em mim deu – uma grande alegria.

Lavagem do Bonfim

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Oásis

Mas pensem: é lotado!!! Muita gente querendo chegar, muita gente querendo sair, um fluxo enorme de gente indo e voltando… Não consegui chegar na igreja nesse dia… Há um palanque para autoridades montado na praça bem à frente da igreja e ao chegar próximo dali nem tive muito ânimo para encarar a entrada na Basílica.

Mas amei a experiência, e não sei explicar o exato motivo…

Ah, observação: eu não levei minha filha… Acho-a muito nova para o programa… Quem sabe um dia!

Os mais céticos podem ver um mar de gente caminhando, no calor, se apertando em alguns momentos, numa longa caminhada sem propósito.

Eu vi crença, devoção e fé. Vi beleza em tudo. Senti uma energia incrível, que me faz querer voltar ano que vem para fazer “direito”: ir cedo para a Nossa Senhora da Conceição da Praia, caminhar de preferência à frente do cortejo e chegar na Basílica a tempo de ver a lavagem, ouvir o hino e receber a bênção do Senhor do Bonfim. Quem sabe se, de quebra, ainda não levo um banho de cheiro???

No fim de semana seguinte, vendo um programa de TV, vi que a festa ao Senhor do Bonfim não é só a lavagem. É um ciclo que inclui novena, missas e até uma queima das fitinhas que estavam amarradas nas estruturas da igreja. Pelo que falaram, as fitas vão se deteriorando e são retiradas, a cada ano, para permitir que outra pessoas possam colocar seus pedidos e ter um téte-à-téte com o Senhor do Bonfim – ou Oxalá, para quem preferir.

É uma mistura linda de crenças e no fim o que sobra é muita energia positiva!!!

Oxalá estarei lá ano que vem, se o Senhor do Bonfim permitir…

Não tenho muitas fotos porque, por segurança, me recomendaram não levar celular, joias, etc. Então, filava o celular do marido, que foi o único que levamos e para pedir Uber – optamos por levar só o dele, porque o meu já está com a bateria dando problemas…

Outra dica de segurança que nos deram: guardar os pertences e dinheiro naquelas “doleiras” que usamos dentro da roupa. Na verdade, em todo o evento que fui havia ambulantes vendendo o acessório. Então, fica a dica: não custa nada proteger o dinheiro e os documentos.

Dados práticos sobre a Lavagem:

  • A Lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim acontece na segunda quinta-feira de janeiro.
  • A celebração começa na Igreja da Nossa Senhora da Conceição da Praia e caminha, em cortejo, até a Basílica do Senhor do Bonfim, a aproximadamente 7 km de distância.
  • O horário previsto da saída do cortejo é às 8h da manhã.
  • A chegada é por volta do meio-dia – em 2018 foi por volta das 12:45.
  • Normalmente as pessoas se vestem de branco.
  • Em alguns pontos, havia banheiros químicos e até relativamente tranquilos para usar, sem filas – mas daquele jeito: já meio precisando de uma guaribada, sem papel, sem nada…
  • E – importantíssimo: não se esqueça do filtro solar… eu, que costumo ser precavidíssima, esqueci… Só não foi pior porque uma alma caridosa tinha um facial e assim pelo menos o rosto não torrou. O dia estava nublado, mas o sol do século XXI está transcendendo quaisquer nuvens… Cuidado!

Eu, depois, voltei à Igreja.

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Além de ponto turístico, verdadeiro cartão postal da cidade, é um lugar muito inspirador e com uma energia incrível. Levamos a pequena lá… Muito a agradecer… Mas essa história eu conto depois…

Você já participou dessa festa? Qual a sua impressão?

Eu só sei que “quem tem fé vai a pé” e eu espero ano que vem estar em condições de ir… Espero estar no lugar certo e na hora certa e poder agradecer, mais uma vez, por tudo…

 

Um comentário em “Lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim

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